sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O trem me exauriu! Parte II

Dando continuidade ao post anterior, só que agora com menos poesia, vamos lá: o trem me pegou!

Não, calma! Eu nunca fui atropelada pelo trem, mas é como se fosse. A vida, até o pedaço em que eu via os trens passarem na frente de casa era uma, depois, ao me tornar uma cidadã dependente do trem para poder trabalhar foi outra. A rotina dentro desse meio de transporte é coisa de louco! Bem, não preciso ir longe, é só você acompanhar o que já foi postado neste blog que já dá pra ter uma idéia. Nada do que foi publicado aqui foi inventado, aliás, este blog nasceu justamente por causa das minhas observações dentro do trem durante as inúmeras viagens que fiz. Eu disse a mim mesma que aquilo era tão surreal que merecia virar história. E virou! Só que são histórias totalmente baseadas em fatos reais, sem qualquer ficção. E precisa?

Sei que aprendi a perceber o crescimento do número de empregos através do trem. A cada semestre, por exemplo, o transporte se torna menor, mais apertado e mais absurdo. Nos horários de pico fica muito claro para os passageiro diários a situação do país. Garanto: no ano passado tivemos um Record nas contratações!

Você junta essa super lotação à falta de estrutura, de manutenção, aos atrasos constantes, às paradas repentinas, acidentes e bizarrices, não dá outra: doideira. Eu cheguei a um ponto que não dava mais pra suportar. Você tem noção do que é ser mulher dentro de um trem desses? Além da sucata que pagamos pra usar, há os passageiros com quem temos de dividir um espaço mais do que escasso e as partes mais íntimas do nosso corpo. Gente, isso estressa muito!

Pra começar: eu saía do trabalho às 18h e ficava na estação até à 19h tentando entrar no trenzinho. Duas estações depois, descia e atravessava a estação para esperar o outro. Pra entrar nesse, mais uma batalha. Quarenta minutos depois (se tudo corresse bem), chegava à estação final e ainda tinha de esperar um ônibus que passa de hora em hora. Isso quando o trem não parava entre as duas últimas estações e ficava por lá mesmo, até muitos de nós perdermos esse ônibus e termos de esperar até as 22h pelo próximo. Essa rotina foi cozinhando meus nervos (que já não são muito tolerantes ao calor).

Já levei pedrada no trem, catarrada, baforada. Já presenciei brigas, amassos, fofocas, porres, exploração e abuso de poder lá dentro. São tantas histórias que, creio, esse blog terá vida longa! Depois disso tudo não tinha como: o trem me exauriu!

Eu balançava lá dentro inconformada com aquilo que se passa todos os dias nos vagões. Claro, há coisas muito cômicas, mas convenhamos, são todas trágicas. Nós brasileiros é que somos pacivos demais e levamos tudo na esportiva, mas se for analisar a fundo, é uma humilhação, um desrespeito, um quadro deprimente das condições de vida e da realidade de muitos ali, bem do nosso lado. Sim, porque embora o trem carregue pra lá e pra cá muita gente, nem todos são miseráveis. Há engravatados, mulheres de salto co-có-có no trem, junto com pessoas visivelmente muito pobres. É um transporte para todos, mas isso não é mérito, uma vez que os serviços prestados são precários. Por que o Metrô não chega a isso?

Todos os dias, ida e volta, eu ia sonhando em ter condições de comprar um carro. Eu me via, me sentia no trânsito caótico. Mas esse era um sonho distante, pois se eu me baseasse no salário que ganhava, o trem seria meu transporte pra sempre e o maquinista meu chofer. Lembro que na época em que o livro e o DVD “O Segredo” estouraram em sucesso, eu, claro, comprei. Li e reli, vi o DVD várias vezes e aquilo começou a me influenciar. Inclusive, “O Segredo” esteve, por muito tempo, na lista de best sellers do trem, conforme postei um tempo atrás. Creio que as viagens de trem e a indignação que sentia com aquela situação cada vez pior ajudaram muito nesse processo de mentalização e atração. Eu mentalizei tanto o meu carro, mas tanto, mas tanto, que consegui! [risos. Não posso evitar, estou às gargalhadas!]

Mas antes disso, a verdade é que eu cheguei a um ponto em que só de pensar em trem já ficava atormentada. Eu comecei a fugir dele de todo jeito, chegando a pegar até 3 ônibus e demorar horas e horas pra não passar nem perto de uma estação. Eu atingi um grau de stress tão grande que estava a ponto de pular no pescoço de quem me dirigisse qualquer palavra dentro do trem. Eu me enterrava entre blusas, bolsas, pra não olhar em volta e não ouvir nada. E quanto eu estava na estação e via aquele VT da TV Trem em que entrevistavam o administrador da CPTM sobre os serviços oferecidos e ele dizia que era um serviço modelo e que estava prestes a superar em qualidade o Metrô, eu xingava o cara em plena estação na frente de todo mundo. Pode? Eu discutindo com a TV de plasma da estação diante de centenas de pessoas? Fim de carreira!

Bem... hoje eu já não sou mais uma passageira de trem. E esse desquite aconteceu antes de poder dirigir meu carro (uma vez que o comprei mas não tinha carta, portanto, não podia usar... hihihihi). Como disse, eu comecei a fugir dos trens, optando por qualquer outro transporte que não fosse ele. Hoje, o vejo passar muito de vez em quando e longe, bem longe. No fim das contas, não ficaram as melhores lembranças.

Que Deus me ajude a ter carro pra sempre, e que brotem estradas para que caibam todos nelas, afinal, este está sendo o drama atual. Mas saiba que não digo isso por falta de humildade (e nem de consciência), mas por puro desencantamento e revolta. Sempre achei o trem a melhor opção em transporte público, mas abandonado como está, não tem jeito. Todo sucateado e mantido por incompetentes, o que poderia salvar muitas metrópoles do caos, está sendo motivo de doença social de muitos trabalhadores. Pura falta de respeito mesmo.

Viu como uma história pode começar bonita e terminar feia? Foi isso o que o trem fez comigo nessa história. Imagine o que faz com aqueles que encaram essa realidade a vida toda por falta de opção? Não é drama, isso tudo causa doença nas pessoas, doenças psicossociais que têm vitimado cada vez mais trabalhadores hoje em dia. São as chamadas doenças da modernidade.

Mas não pretendo abandonar este vagão aqui. O criei com muito amor e sempre postei nele com o máximo de responsabilidade. Gosto dele e das histórias que ele me trouxe. Boas ou ruins, afloraram minhas percepções e meu poder de observação. Só que agora terei de conversar mais com passageiros, ler mais notícias sobre ele, viver novas experiências ferroviárias e até dar uma guinada no gancho. Quem sabe agora a gente começa a contar um pouco da história desse trem até descobrirmos como ele se tornou o que é hoje?

Prometo que vou buscar "estações" interessantes escondidas pra postar aqui. Piuí pra você!

4 comentários:

Enio, o "Picador de Bilhetes" disse...

Cara "passageira" Aliz

Eu sei o que é isso, esse meio de transporte, meio férreo e meio "gelatinoso". Este que vos escreve já "viajou nesse mesmo trem aí no final da década de 70, início dos 80, pois trabalhava no Polo Petroquímico de Capuava e foi nesse trem que li boa parte de tudo o que penso saber. Minha "formação teórica" acerca das minhas exóticas ideologias me foi ministrada nesses vagões. Eu acordava às 4h:30 aqui em santana, ía de "onibus elétrico" até a Luz, pegava esse trem até Capuava e subia aquela Av. Costa e Silva até à fabrica onde trabalhava (era um "quimicuzinho"), ao sair do trabalho, voltava para o trem até a Barra Funda para a faculdade de engenharia, saía às 23h:00, e de onibuas pra casa até Santana, e isso todos os dias e ainda me sobrava tempo para o movimento estudantil, o sindicalismo e as outras "politcagens" noturnas por eu tentar ganhar uns trocados a mais nos "bares da vida" tocando violão.
Era uma maratona que jamais vou me esquecer (nem poderia !!!), mas que também foram os melhores momentos da minha vida sem qualquer dúvida.
Nunca fiz parte da "turma" de pé, pois sempre viajei nos contra fluxos e poucas vezes o trem estava tão lotado.
Bem, era uma outra época e muito longe desta TV de plasma aí.

Sabe que até deu tempo de arrumar uma namorada aí nesse trem?
Veja você !!!
Enfim continue nos contando, voce é ótima "escriba"
Escreve mais...

um beijão !!

olhosdosertão disse...

Olá companheiros e companheiras, criei o blog Olhos do Sertão para ser um espaço informativo e formativo sobre coisas do Brasil. Venham participar. Coloque Olhos do Sertão em seus favoritos e divulgue. Agradeço: Olhos do Sertão.

Enrique Andres disse...

Alizinha, você passou um bocado nesses trens da vida, mas no final das contas acho que tudo é válido.
Tanto assim que deu para postar esta história, esta magnífica narração, mostrando aos que desconhecem, uma dura realidade enfrentada pelos usuários dos trens.
Essa tua luta, tem tantos méritos como ser um guerreiro do asfalto.
Tu foste uma guerreira dos trilhos e por que não?
Adorei esse teu relato tão humano, quando comentas depois, na segunda parte, que ias de encontro a tua vovó de casaco azul de lã e sua bolsa beije......quem que não teve uma avó para relembrar dos seus abraços com o máximo carinho?
Bem querida......não me faças chorar......
Tudo se torna sutil em tua vida, adorável, reprisando os mínimos detalhes, os teus momentos mais contrastantes de raiva e de conforto.
Com certeza valeu tanto esse sacrifício, que hoje, já com carro próprio, desfrutarás muito mais desse conforto e darás mais valor às tuas conquistas.
Acredito sim, e mais, tenho toda certeza que tu és uma guerreira triunfante, além dessa alma maravilhosa que saboreia a vida de pouco a pouco, sentindo, vendo, comentando. Nada para ti é em vão, tudo tem sentido, uma razão.
Quero que continues assim para sempre, reparando nas coisas e principalmente nos outros, despejando esse manto amoroso nas pessoas que bem te querem.
Sou teu fã Aliz.
Tua sensibilidade me faz muito bem.
E acredito que teus muitos amigos concordam comigo também.
Continua sendo essa menina linda, de amplo sorriso, com uma palavra oportuna e esse coração enorme sempre pronto para amar!

um beijo grandão!

Enrique Andres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.